A Hora Marcada – [Contribuição]

29 08 2008

Nossa primeira contribuição externa! Foi do meu padrinho…mas tudo bem.

Espero que seja um incentivo aos demais leitores do blog.

Vamos lá, envie o seu conto para contosoudescontos@gmail.com

Um Abraço.

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A Hora Marcada

Nova York, 04/04/04.

O relógio digital marcava 4 horas e 2 minutos da madrugada. Sofia apertava o xale contra os ombros, espantando o frio do início de primavera em Nova York, enquanto esperava passar mais um minuto do relógio. Seus ossos doíam; era a artrite que piorava ao menor sinal de frio. Mas ela não se importava; perto do que ela já tinha passado há 60 anos atrás, a dor da artrite podia ser considerada um prazer. Era só se lembrar do frio do porão da fábrica de picles, na Kalverstraat Street, em Amsterdã. Do frio e do cheiro acre dos picles estragados que escondiam a ela e a sua família…

Como um passe de mágica, a dor da artrite ficou mais suportável. Lágrimas vieram aos seus olhos ao se lembrar do irmão Samuel, um pequeno gênio da matemática, sempre obcecado pelo número 4… Na época, ele era o irmão mais velho. Sofia esperava reencontrá-lo agora, mas não sabia se seu plano daria certo. Durante anos ela tinha estudado as capicuas – uma confluência de horas, minutos, segundos, dia, mês e ano, que configuravam uma data perfeita, um palíndromo do tempo, formando um numeral que poderia ser lido de trás para frente, e de frente para trás. Algo como as 11 horas, 11 minutos e 11 segundos do dia 11 de Novembro (11) do ano 1111. Samuel era fascinado com estas datas perfeitas, e acreditava que, se alguém se preparasse muito, poderia aproveitar o exato momento de uma capicua para viajar no tempo e no espaço. Em sua infância, Sofia não acreditava muito nisso; observava com desprezo Samuel fazendo seus cálculos, planejando o que fazer no momento exato da primeira capicua que iriam viver, no dia 04 de Abril de 1944. Naquela época, mal podiam imaginar onde estariam nesta data…

Amsterdam, 04/04/44

O ponteiro maior se aproximava do quarto indicador do relógio de pulso. Em breve seriam 4 horas e 4 minutos. Samuel Davidovitz havia esperado por este momento por quatro longos anos; desde que a Alemanha invadira a Holanda, desde que ele tinha tido que se esconder com o pai e as duas irmãs no porão fétido da loja de picles. Há quatro anos eles não podiam sair, se alimentavam apenas do que era jogado na ante-sala do porão – os picles mais azedos, ou estragados, aqueles que não serviam para comer. A mãe de Samuel já tinha morrido há muito tempo; tinham-na enterrado num dos cantos do porão, sem poder dar a ela um enterro legítimo. Samuel ainda estremecia quando se lembrava que havia passado por sua cabeça a possibilidade de eles usarem o corpo da mãe como alimento; foi a única vez que seu pai quebrou a lei do silêncio absoluto que tinha imposto à família, dando um tapa na cara de seu primogênito, e xingando-o dos piores nomes possíveis (sendo shmuck o mais simpático deles). Samuel foi obrigado a ouvir que não fazia nada, a não ser pensar naquelas ilusões numéricas de datas perfeitas; o pai não falava alto – os judeus europeus tinham se acostumado há muito tempo a só falar por sussurros – mas mesmo assim, um dos socos que deu no filho o levou ao chão, fazendo com que um dos vidros de compotas caísse da prateleira e se espatifasse no chão. Um soldado nazista, que tinha vindo à loja comprar conservas para sua namorada, ouviu o barulho e veio inspecionar o porão; Samuel, seu pai e as irmãs se esconderam debaixo de caixotes fedorentos de lixo.

Depois que o soldado nazista tinha se convencido que no porão só havia lixo e que o barulho que ouvira devia ser algum rato (na verdade, o soldado tinha ficado com nojo de sujar suas botas brilhantes no chão coalhado de picles velhos e fedorentos) o dono da loja de picles desceu ao porão para falar com a família. Gritou e esbravejou, dizendo que estava correndo um imenso risco ao esconder a família no porão; ameaçou jogar a família na rua, se fizessem mais barulho. Só aceitara escondê-los ali por dinheiro; para isso, recebera todas as economias que o pai de Samuel tinha guardado durante vinte anos para pegar um navio para a América. Era muito arriscado, e o pai de Samuel sabia o quanto era importante que eles ficassem calados, sem que ninguém soubesse que estavam ali. Algumas vezes, eles ouviam o rádio no andar de cima, e nas poucas vezes em que o dono da loja de picles deixava de ouvir as rádios de propaganda nazista para sintonizar a BBC, o pai conseguiu entender que os Aliados estavam a caminho. Era a sua última esperança. As meninas, Sara e Sofia, não conseguiam mais chorar. Sofia não falava havia quatro anos e quatro meses; a última palavra que tinha dito era “medo” ao ouvir o passo forte e ritmado das botas dos soldados nazistas lá fora, na rua. Sara às vezes a colocava no colo e lhe contava histórias, bem baixinho. Era a sua maneira de também ter esperança, dando à irmã um fiapo de ficção a que se agarrar, em meio a toda a miséria em que se encontravam. Samuel também tinha esperança; mas toda ela estava depositada na capicua, no momento exato da confluência de vários números 4, quando ele e a família poderiam escapar, viajando pelo tempo até um lugar menos impiedoso, uma época menos miserável, onde poderiam andar na rua sem ter que ostentar uma estrela de David azul no braço. Onde não teriam que aturar as cusparadas de outros enquanto andavam pela rua; onde teriam pão e mel em abundância, onde iriam para a escola, onde não seriam discriminados apenas por não comerem carne de porco e por não se ajoelharem diante de uma estátua de um homem pregado numa cruz.

Agora Samuel esperava o momento exato. Olhava para a parede, e mentalizava a sua saída daquele inferno. Os tijolos começaram a adquirir uma cor translúcida, até sumirem. Uma névoa ocupou o lugar onde os tijolos estavam. O pai de Samuel se aproximou por trás dele, finalmente acreditando na quimera do filho. Do outro lado, começaram a ver uma sala, com móveis requintados, e uma cadeira de balanço onde se sentava uma pessoa; a neblina foi se desfazendo, e perceberam que na cadeira se sentava uma velhinha, com os olhos fixos neles. Samuel ria, com lágrimas nos olhos, enxergando no rosto do pai o arrependimento por não ter acreditado no filho. Sara e Sofia estavam boquiabertas, sem acreditar no que viam. Sofia olhou nos olhos da velha do outro lado da parede; algo naqueles olhos a fizeram estremecer; sentiu um medo, um frio em todo o seu ser, e quando a velha se levantou e caminhou para o porão, Sofia não suportou mais: por mais que ela sentisse que não devia, que aquilo era contra tudo o que tinham feito até então, a menina abriu a boca e pela primeira vez em quatro anos e quatro meses, soltou um som, gritando com toda a força de seus pulmões.

Lá fora, soldados nazistas ouviram o barulho, e sem ouvir as desculpas esfarrapadas do dono da loja de picles, entraram no porão atirando. Samuel foi o primeiro a ser atingido, tentando proteger o pai; Sara caiu por cima de Sofia, que por instinto, ficou calada por baixo do corpo da irmã. Os soldados depois a encontraram, e levaram-na para Auschwitz, de onde só sairia ao final da guerra, para se casar no outro lado do Atlântico, em Nova York.

Nova York, 04/04/04.

O relógio digital marcava 4 horas e 3 minutos da madrugada. Sofia apertava o xale contra os ombros, indo para frente e para trás na cadeira de balanço. Durante anos, tinha se preparado para aquele momento. Fora por sua culpa que Samuel não tinha conseguido escapar. Se ela pudesse pelo menos ajudá-lo por um só instante…

Concentrou-se no que tinha que fazer. Abriu os vidros de picles que tinha comprado há algumas semanas. O cheiro invadiu a sala, e ela se sentiu de novo no porão da Kalverstraat Street. A parede de sua cobertura começou a se esfumaçar, como a parede do porão de 60 anos atrás. Do outro lado, através da névoa, ela podia divisar Samuel, o pai, e as duas meninas ao fundo. Sem pensar duas vezes, sentindo a dor da artrite como agulhas entrando por todo o seu corpo, ela se levantou e correu, o mais rápido que pôde. Samuel, ainda rindo, foi puxado por ela para dentro da sala. A velha tentou empurrar também o pai, mas ela não tinha tanta força; abobado com a situação, o pai olhava para o rosto de Sofia, reconhecendo-a de algum lugar… A pequena menina no colo de Sara começou a gritar, e a velha a tomou dos braços da irmã, dizendo:

- Corra para lá dentro!

Foi tarde demais. Os soldados entraram atirando de novo, desta vez matando a todos que estavam do lado de cá do porão. Do outro lado da parede, que se fechava, no quadragésimo quarto andar de um edifício de luxo em Nova York, Samuel chorava, sem saber onde estava, sujando o imaculado tapete felpudo e branco com seus pés imundos, ainda sentindo o cheiro dos vidros de compotas de picles em cima da mesa ao lado da cadeira de balanço. Do outro lado, no porão da Kalverstraat, jaziam quatro cadáveres: o corpo do pai, de Sara, e de uma velha abraçada a uma garota, ambas com cordões de ouro ao pescoço indicando o mesmo nome: Sofia Davidovitz. Foram enterrados em uma só cova, quatro corpos abraçados e nus, enquanto um grito pavoroso inundava o 44º andar de um edifício em Nova York, sessenta anos depois.

Autor: Fernando Américo





Uma história infeliz

27 08 2008

 

Um homem nasce no ano de 1981 em São Paulo, seu pai possui um pequeno comércio e sua mãe cuida da casa. Quando ele faz seis anos, em 1987, seu grande amor está nascendo. Ele já sabe ler e escrever, e é fã de Jaspion, Chaves e revistinha em quadrinhos, enquanto isso seu grande amor sofre com terríveis assaduras.

O bom é que eles ainda não se preocupam com questões amorosas.

O tempo passa; agora nosso protagonista é um adolescente de 14 anos, com os hormônios daquele jeito, continua fã de revistinhas, mas agora seu programa preferido não é mais Jaspion e sim Cine Privê. Coisas da idade. Enquanto isso seu grande amor, acaba de completar 08 anos, adora bonecas, como a maior parte das meninas, e jura de pé junto que nunca irá namorar. Acha o beijo uma coisa muito nojenta.

O tempo, como dizia o Cazuza, não pára.

Assim nosso homem, já tem 25 anos. É ótimo com as mulheres, mas procura algo mais sério, na realidade, sem saber procura seu grande amor. Seu hobby mantém, adora ler revistinhas em quadrinhos. Hoje em dia seu futuro grande amor também mudou, já é uma mulher. 19 anos, linda, já não tem aquela opinião antiga sobre o beijo, muito pelo contrário. Com relação à pessoa da sua vida, não pensa muito nisso, se preocupa mais com os estudos.

É nesse momento que o lado mais cómico e trágico da vida acontece, eles só têm uma chance de se conhecerem. Seria assim: ela tropeçaria e cairia bem na frente do seu grande amor. Ele a ajudaria e aquilo porque todas as pessoas mais anseiam aconteceria. Um amor sem igual. Um amor de filme.

Eles andam, em uma pequena rua muito movimentada do centro de São Paulo. O destino de mãos dadas com o amor, esperam ansiosos pelo encontro enquanto tomam uma cerveja. Os dois sabem que eles foram feitos um para o outro, mas não podem interferir, tudo deve acontecer naturalmente. São as ordens do engenheiro maior que manda em toda essa bagunça que é a Terra.

Ele vem a passos largos, ela toda elegante mal sabe que há poucos metros irá tomar um belo tombo. Um tombo que poderá mudar a sua vida. Tudo está nos conformes, o destino e o amor apertam fortemente suas mãos, eles vãos se conhecer. É só isso que tem que acontecer. Estão há poucos metros.

Mas…

Ele pára. Viu algo que chamou atenção em uma loja. Ele entra na loja. Ela cai. Machuca o joelho. Ele não está lá. Uma mulher a ajuda levantar, ela agradece e sai muito constrangida. Ele aparece na porta da loja, tem em sua mão uma revistinha em quadrinhos e um cartão escrito Loja dos Quadrinhos. Ela já está longe, joelho ralado. Ele feliz com sua nova revista. O amor e o destino desiludidos. Agora resta a eles viverem sempre a procurar. Sem nunca mais encontrar.

Fim.

Você pode dizer: nossa que história sem graça. Se eles não se encontraram quer dizer que não era para ficarem juntos. Pode ser, mas sinceramente não sei. Como disse no início, não escrevo verdades, apenas tento escrever a vida.





As memórias do Albert em: Super-Poderes e Super –Heróis

26 08 2008

Chega uma fase na vida da gente, que queremos porque queremos ter Super-Poderes, voar mundo afora, vestir capas coloridas, mandar raios laser e sopros de gelo. Ter 10 anos é viajar na própria imaginação. Eu me lembro como se fosse ontem do dia que eu sonhei ter sobre voado a cidade, era tão real, cheguei a acreditar em tudo aquilo – e acreditei mesmo -. Lembro ate hoje do meu tio zombando de mim dizendo que eu tinha sonhado, mas ele estava enganado, foi bastante real pra mim, minha realidade tem a forma que eu quiser, eu só tinha dez anos, ele não podia ser tão adulto comigo.

Por falar no meu tio, lembro bem da minha mãe falando que ele tinha uma Super-Poder também, o de afastar os amigos, e olha que isso pra mim é um Super-Poder super poderoso, eu mesmo não consigo ficar afastado dos meus amigos nem um dia sequer, se estivéssemos num gibi ele serio uma dos super poderosos mais temidos.

Tem também o meu avô, ele consegue ficar um dia todo sentado na praça vendo o movimento das pessoas que perambulam de lá pra cá, de cá pra lá, acho também que ele é a pessoa mais velha que eu conheço que ainda resmunga tanto.

Há ainda o famigerado açougueiro, dizem por ai que ele é o homem mais forte da cidade, que ele teria força e valentia fora do comum, dizem que ele matou um touro com as próprias mãos, dizem também que um dia ele estava com fome e comeu uma ovelha inteirinha, viva.

Minha avó por sua vez tem o poder de reunir todos da família – ate os meus tios e primos chatos -, além de fazer doce de mamão como ninguém.

Eu tinha ainda algumas vizinhas que viviam na porta de suas respectivas casas fofocando, tinham duas que eu acho que nasceram falando, e desde então nunca mais fecharam a boca…

Minha mãe também merecia uma capa, roupa colorida e tudo mais, ela tinha o incrível poder de me acalmar, de fazer as torradas do café da tarde mais gostosas do mundo, além de ter o poder assustador de fazer qualquer um dormir enquanto ela fazia cafuné.

A Rosinha – garota de dez anos mais linda do mundo – tinha também um poder inexplicável, ela hipnotizava qualquer um que olhasse pra ela por mais de um segundo, inclusive eu.

Quando eu tinha dez anos eu tinha muito mais que poderes, eu tinha um brilho no olhar, tinha a inocência de criança do interior, uma imaginação que era capaz de me colocar a frente de leões, dragões do mal, de me levar a outros planetas e muito mais, com o tempo eu fui perdendo um pouco disso, do encanto, da magia, da inocência, mas de vez enquando, eu fecho os olhos eu ainda sobrevôo lugares cidade a fora, e lá do alto, bem la do alto – você pode nem acreditar – a visão é tão linda, é inexplicável…





Relacionamento

12 08 2008

- oi.

- oi.

- Não vai me dar um beijo?

- Não.

- Por quê?

- Não quero.

- Por quê?

- Por nada.

- Fiz algo?

- Não.

- Então o que foi?

- Isso.

- Isso o que?

- Você nunca faz nada.

- Mas o que era pra fazer?

- Eu tenho que falar?

- Você complica tudo.

- E você não?

- Menos que você.

- Ai, ai, doce ilusão.

- Vai se irônico agora?

- Desculpa.

- Agora não adianta pedir desculpa.

- Então problemas, melhor ir embora.

- Isso, foge.

- Não estou fugindo.

- Não?

- Não! Só não quero brigar.

- Mas já brigamos.

- Já?

- Já!

- Por quê?

- Não sei.

- Então vai terminar assim.

- Terminar? Quem falou em terminar?

- Terminar a conversa!

 - Quer acabar com nosso namoro?

- Eu não falei isso.

- Seja homem.

- Para com isso.

- Então se não tem coragem, eu tenho.

- Vai terminar comigo?

- Vou.

- Então tchau.

- Tchau.

- ………………

- ………………

-  Aqui…

- Que foi?

- Não nada.

- Fala.

- Não.

- Fala.

 - Eu te amo.

- Eu… eu…

- Desculpa… ?

- Sim. Você também me desculpa?

- Claro.

- Então me beija.

- Agora.

Fim.





Tuko um Indiano no Brasil

12 08 2008

Meu nome é Tuko, Tuko Archmed, eu sou Indiano, e definitivamente não gosto de felicidade, eu nunca sorrio, nem em filme de comédia, nem vendo política ou fazendo sexo, se bem que, fazer sexo com minha esposa é muito engraçado, ela faz uns barulhos estranhos, e vive me chamando de outros nomes, diz que é pra apimentar a relação.

Minha esposa é do tipo, gordinha, sabe, se ela ficar de quatro na cama a barriga dela bate no lençol, Minha esposa chama-se Linda, e ela se parece uma obra de arte, ela parece um quadro de Picasso, e os vizinhos ainda me perguntam por que ela vive de burca, brasileiro é sacana, gosta de ver a desgraça dos outros…

Eu sou indiano (acho que já disse isso), e minha família tem certa tradição militar, desde o meu tataravô todos os homens da família foram bravos combatentes, e é impressionante como sempre acontece a mesma coisa, todos morrem logo na primeira missão, sabe como é né, uma família de homens bomba.

Ao invés de ter minhas 72 virgens (escrevendo-me cartinhas com corações, chamando-me de miguxo, perfis no “Orkut” cheios de corações e entrando nas comunidades do “Nxzero”, “Eu amo mulçumano de boné”), minha família preferiu arranjar um casamento, e me mandar para Brasil.

Eu acabo de chegar e vou narrar muitas das minhas experiências, mas depois de terminar uma prece a todos os donos de frigorífico.





O Viciado em Filas

8 08 2008

Eduardo era um rapaz normal. Brincou quando era criança, estudou a vida toda, ajudou o pai na serraria da família. Mas foi exatamente nesta época que Eduardo deixou de ser normal. Como ia muito ao banco para o pai, Eduardo ficou viciado em filas. Isso mesmo, viciado em filas! Vê se pode! O rapaz não podia ver uma fila que, ‘zupt’, corria para o último lugar. E não pense que ele gostava de filas por que ele conhecia um monte de gente, não não, nada disso. Ele até preferia não conversar com ninguém. Gostava mesmo de ficar em filas. Teve uma vez que ficou 4 dias em uma fila, quanto mais o tempo passava mais feliz ficava Eduardo, “isso sim é uma fila” pensava ele. Isso atrapalhava um pouco a vida de Eduardo. Sempre se atrasava para algum compromisso, ele sempre passava por alguma fila. Não agüentava, nem se fosse uma fila formada por 3 pessoas. Passar em frente banco então. Putz! Eduardo fazia o seu caminho pensando nos bancos. Abundância em fila! Uma vez viajou para o exterior. Não gostou. Lá eles não faziam filas como aqui. Aqui sim, temos Filas com ‘f’ maiúsculo. Jogo da seleção. Eduardo amava, não o futebol é claro, que isso ele detestava. Mas as filas, homéricas. Quando alguma grande empresa anunciava vagas de emprego, ele quase que dava pulos de alegria.

Mas como eu disse, isso começou a atrapalhar a vida dele. A família achava muito estranho os sumiços. O pai disse, ‘esse menino tá metido com droga’. A mãe era só pranto. Gritava ‘aonde foi que erramos?’. O pai chamou o filho para uma conversa.

- Nós sabemos – disse o pai.

- Sabem do quê? – retrucou Eduardo.

- Do seu vício.

Eduardo ficou surpreso, esperava tudo menos isso. Ninguém poderia descobrir. Viciado em filas! Isso iria acabar com a reputação da família.

- Como ficaram sabendo?

- Então é verdade? – perguntou o pai em total desespero – Meu Deus muleque! Mecher com droga, o que sua avó vai pensar? Seu tio Márcio então, aquele falastrão! Eu devia bater em você!

Uma saída! Então eles pensavam que eram drogas. Menos mal. Ele tinha que confirmar, melhor drogado que maluco. Maluco não. A família podia suportar um drogado, um maluco, jamais! Tinha até um primo de terceiro gral que fora internado uma vez. Ele ainda ia aos encontros da família. Era isso! Não podia deixar que soubessem…

- Desculpa pai! Não sei onde estava com a cabeça…

O pai ficou feliz. “Pelo menos o pivete confessou”.
Eduardo foi internado, disseram para a família que ele estava sob forte stresse por causa do Vestibular. Mandaram ele de férias para uma fazenda.

(Des) Pedro Américo





Uma noite de amor

5 08 2008

Sábado, 22:15.

Era possível ouvir o batido da música há um quarteirão de distância. O movimento era intenso na porta de uma das mais badaladas boates da região. Lindas mulheres, homens musculosos.  A sensação e o cheiro da sensualidade eram quase palpáveis. Todos os olhares e toques eram extremamente carregados de um intenso erotismo. A poucos metros da entrada da boate Mateus e Carlos caminham em direção a esse ambiente recheado de desejo. Eles são dois amigos de infância completamente diferentes. Carlos poderia até ser escolhido como mascote da boate. Sua vida se resumia ao trabalho como gerente de uma grande multinacional e caçar mulheres. Nunca conseguiu, e nem queria, ficar com uma mulher mais do que algumas semanas. Era apaixonado por sexo. O que sempre encontrava nessa boate. Mateus, por sua vez, era bem mais tímido, na realidade muito mais tímido. Apesar de ser alegre, conversado, era como dizia Carlos, um sonhador abobalhado. Mateus gostava de conhecer as mulheres com quem se envolvia e dizia que adorava a alma das pessoas, das histórias, dos sonhos. Não é que ele não gostasse de sexo, pelo contrário, mas Mateus sempre queria algo mais. Apesar de estilos de vidas bem diferentes, os dois eram amigos. Estavam sempre juntos.

Naquela noite, Carlos estava mais louco por sexo do que o normal. Disse que não queria ficar muito na boate, seu único objetivo era conseguir uma linda mulher e ir para algum motel. Mateus, por algum motivo, que não sabia ao certo, estava triste, queria apenas escutar uma boa música e beber um pouco.

Porém, muitas coisas na vida não acontecem da maneira que pensamos.

Os dois entraram na boate e Carlos mais que depressa investiu com seu charme e papo sedutor em uma linda loira, que, segundos depois, demonstrava que queria a mesma coisa que ele. Mateus, de longe, tomando um whisky, admirava a desenvoltura de seu amigo com a Loira. Eles já dançavam sensualmente. Ela, com uma cintura escultural, apoiava seu corpo no corpo de Carlos, e deixava, propositadamente, seus seios firmes tocando o corpo daquele homem. Ele, louco de desejo, a abraçava e passava suas mãos nas costas daquela linda mulher. Tudo era feito sem afobação, devagar, descia até próximo as suas coxas, mas não ultrapassava o limite. Era esperto.

Estava apenas querendo deixá-la excitada. Conseguiu.

Depois de três músicas ela disse, deixando bem claro o que queria: “vamos sair daqui”. Carlos apenas acenou para o amigo e saiu. Nessa noite ele caçou e foi caçado.

Mateus ficou sozinho, pediu outra bebida e pensou em ir embora, não queria conversar com ninguém, veio mais pelo amigo que há essa hora já deveria estar dentro do carro com a Loira. O garçom o serviu e ele saiu andando sem prestar atenção em nada. Foi quando avistou uma mulher que dançava sozinha no meio da pista. Era uma mulher bonita, mas mais que isso, o que chamou sua atenção era a alegria e a vontade de viver que brotava daqueles olhos, que, sem saber por que, também pareciam tristes.

Ele parou. Ficou admirando-a.

No meio de toda aquela algazarra, casais se beijando, conversas, risos, Mateus lembrou de quando era criança e sua mãe colocava pequenas flores artificiais para atrair beija-flores, ele ficava horas parado apenas admirando o bailar daqueles belos pássaros. Aquela mulher era um beija-flor, ela dançava com uma alegria impressionante, mas por algum motivo Mateus sabia que, como o beija flor, ela não era um pássaro que poderia ser preso, sua grande força e beleza estava na liberdade da sua vida, em como se expressava sem constrangimento, sem malícia, apenas sincera. Natural. Por um instante, desejou intensamente ser uma daquelas flores que sua mãe utilizava, e atrair aquela Linda Beija-flor, para seus braços. Sem saber explicar muito bem o que aconteceu, logo após pensar isso, ela o olhou. Apenas um olhar, simples, direto, e começou a andar em sua direção.

Era uma beija-flor sendo atraída.

Mateus não sabia o que fazer, mas não precisava fazer nada. Ela chegou e disse: me tira daqui. Ele respondeu: qual seu nome? Ela o beijou e pediu: não faça perguntas, apenas me tira. Mateus pegou em sua mão e saiu na frente sem saber o que significava tudo aquilo. Ela pediu para não conversar, apenas queria ficar deitada em seu ombro e que ele a levasse para algum lugar solitário que pudessem ouvir uma música romântica. Mateus agia da mesma forma que as flores artificiais de sua mãe, apenas dava tudo o que aquele pássaro pedia. Ele a levou para sua casa. Ela, antes de entrar deu outro beijo, um beijo que parecia sugar a essência da vida de Mateus. Um beijo inesquecível.

Eles entraram.

Dentro do apartamento ela falou: meu nome é Andréia. Logo depois foi andando em direção ao cômodo que parecia ser o quarto, enquanto tirava a roupa lentamente. Quando chegou à porta estava completamente nua. Virou-se. Um corpo perfeito. Mateus não conseguia dizer nada, ela o chamou: “vem”. Mateus, já nu deitou, ela com uma sutileza apaixonante, deitou por cima dele e disse bem baixinho: “fique quieto, não me toque, apenas sinta o meu corpo sobre o seu. Por favor, apenas sinta é o que te peço.” Deu-lhe outro beijo, e como uma criança que pede proteção, se encolheu sobre o corpo daquele homem que mal conhecia. Mateus a principio não sabia o que fazer, apesar de estar louco de desejo, nunca tinha vivido sensações tão intensas com uma pessoa, ainda mais com uma pessoa que sabia apenas uma coisa: chamava-se Andréia. Resolveu mais uma vez obedecer. Apenas sentia aquela mulher linda, misteriosa, que a partir daquele momento sempre seria sua beija-flor. Os dois ficaram quietos, apenas se sentindo. Era uma sensação tão intensa e relaxante que, por incrível que pareça, adormeceram. Pela manhã, Mateus acordou e seu beija-flor havia voado. Não estava mais com ele. Do lado apenas um bilhete com a seguinte frase: “obrigado pela melhor noite de amor da minha vida.” Mateus chorou e passou a acreditar mais ainda que sexo nada tem haver com amor.

Thiago Carmona.





Bem-Vindos

3 08 2008

Bom, este é o primeiro post deste blog que eu realmente espero que funcione.

O que seria um blog, especificamente esse, funcionando? Seria:

- Todos (Des)Contadores postando os contos toda semana

- Leitores fixos

- Colaboradores (vou explicar)

- E (por que não?) uma bela quantidade de leitores e colaboradores.

O resto é lucro.

Primeiro vou contar (resumidamente) como surgiu o Contos ou (Des)Contos.
Eu tenho um blog há mais de um ano, oCrepúsculo, lá é o meu “espaço de escrita”. Quando preciso, ou apenas sei que tenho que escrever alguma coisa, é lá que eu escrevo. E foi lá que eu criei uma seção chamada…”Contos ou (Des)Contos”. Eu a criei justamente para me forçar a escrever mais que alguns textos, crônicas, poemas e afins. Infelizmente não funcionou como eu queria. Escrevi apenas dois contos, acho eu. Então um belo dia, indo para agência, criei um personagem do qual poderia render alguns contos. E como eu e o Thiago (outro (Des)Contador) queríamos fazer alguma coisa para escrevermos mais, resolvi desenterrar esta seção do meu blog. Mas não só desentarrar e sim ressucitá-la, dar-lhe um belo banho, botar-lhe uma roupa legal e mudá-la de endereço.

Então eis que vos surge este blog. Que além de mim (Pedro) e do Thiago, conta também com o Rodrigo.

Espero daqui a pouco tempo, contar com cada vez mais colaboradores! =D

Bom, já contei a historinha, falta falar como vai funcionar. Primeiramente é claro, pois tenho a impressão (certeza!) de que vamos mudar isso logo logo. Vai ser o seguinte:

- Cada (Des)Contador, postará um conto, uma vez por semana.

- Cada (Des)Contador criará pelo menos um personagem (cada personagem terá a sua seção no blog) e terá de postar um conto deste personagem, pelo menos uma vez por mês.

- Além dos contos dos personagens (espero que sejam vários!!) distribuiremos os contos por tema (decididos ao bel prazer do seu autor), cada tema, é claro, será uma seção no blog.

- Ao passar do tempo, contando que já teremos alguns leitores, os tais leitores poderão (já podem se quiser), mandar um conto no e-mail do blog (contosoudescontos@gmail.com). Os contos enviados pelos leitores terão, também, uma seção no blog. E, lógicamente, os leitores poderão se tornar membros permanentes do blog. Sim, você pode se tornar um (Des)Contador!

É, por enquanto é isso. Até haver alguma mudança, essas são nossas regras!

Boa Leitura

Aproveite!

Ps.: O visual do Blog é bem tosco, se alguma boa alma quiser fazer algo para nós neste sentido, por favor! E digo que é uma vergonha para dois Diretores de Arte não conseguirem dar um jeito nisso! Pois é, em casa de ferrero o espeto é de pau.

(Des)Contador Pedro.