O Viciado em Filas

8 08 2008

Eduardo era um rapaz normal. Brincou quando era criança, estudou a vida toda, ajudou o pai na serraria da família. Mas foi exatamente nesta época que Eduardo deixou de ser normal. Como ia muito ao banco para o pai, Eduardo ficou viciado em filas. Isso mesmo, viciado em filas! Vê se pode! O rapaz não podia ver uma fila que, ‘zupt’, corria para o último lugar. E não pense que ele gostava de filas por que ele conhecia um monte de gente, não não, nada disso. Ele até preferia não conversar com ninguém. Gostava mesmo de ficar em filas. Teve uma vez que ficou 4 dias em uma fila, quanto mais o tempo passava mais feliz ficava Eduardo, “isso sim é uma fila” pensava ele. Isso atrapalhava um pouco a vida de Eduardo. Sempre se atrasava para algum compromisso, ele sempre passava por alguma fila. Não agüentava, nem se fosse uma fila formada por 3 pessoas. Passar em frente banco então. Putz! Eduardo fazia o seu caminho pensando nos bancos. Abundância em fila! Uma vez viajou para o exterior. Não gostou. Lá eles não faziam filas como aqui. Aqui sim, temos Filas com ‘f’ maiúsculo. Jogo da seleção. Eduardo amava, não o futebol é claro, que isso ele detestava. Mas as filas, homéricas. Quando alguma grande empresa anunciava vagas de emprego, ele quase que dava pulos de alegria.

Mas como eu disse, isso começou a atrapalhar a vida dele. A família achava muito estranho os sumiços. O pai disse, ‘esse menino tá metido com droga’. A mãe era só pranto. Gritava ‘aonde foi que erramos?’. O pai chamou o filho para uma conversa.

- Nós sabemos – disse o pai.

- Sabem do quê? – retrucou Eduardo.

- Do seu vício.

Eduardo ficou surpreso, esperava tudo menos isso. Ninguém poderia descobrir. Viciado em filas! Isso iria acabar com a reputação da família.

- Como ficaram sabendo?

- Então é verdade? – perguntou o pai em total desespero – Meu Deus muleque! Mecher com droga, o que sua avó vai pensar? Seu tio Márcio então, aquele falastrão! Eu devia bater em você!

Uma saída! Então eles pensavam que eram drogas. Menos mal. Ele tinha que confirmar, melhor drogado que maluco. Maluco não. A família podia suportar um drogado, um maluco, jamais! Tinha até um primo de terceiro gral que fora internado uma vez. Ele ainda ia aos encontros da família. Era isso! Não podia deixar que soubessem…

- Desculpa pai! Não sei onde estava com a cabeça…

O pai ficou feliz. “Pelo menos o pivete confessou”.
Eduardo foi internado, disseram para a família que ele estava sob forte stresse por causa do Vestibular. Mandaram ele de férias para uma fazenda.

(Des) Pedro Américo


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2 respostas

10 08 2008
celiacassije

Muito bom o seu conto!
Lembrei-me de um conto de Luis Fernando Vérissimo (As Mentiras que os Homens contam, acho que é isso mesmo), em que homem mente para sua mulher, dizendo que a traíra com uma outra mulher, para evitar discussão, sendo que ele realmente perdera a aliança quando mexia no carro.
Boa sorte com seu blog e continue assim (:

16 08 2008
Caio" Abbath

Já disse a pessoa que lembro nesta história, não é mesmo?

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