Uma história infeliz

27 08 2008

 

Um homem nasce no ano de 1981 em São Paulo, seu pai possui um pequeno comércio e sua mãe cuida da casa. Quando ele faz seis anos, em 1987, seu grande amor está nascendo. Ele já sabe ler e escrever, e é fã de Jaspion, Chaves e revistinha em quadrinhos, enquanto isso seu grande amor sofre com terríveis assaduras.

O bom é que eles ainda não se preocupam com questões amorosas.

O tempo passa; agora nosso protagonista é um adolescente de 14 anos, com os hormônios daquele jeito, continua fã de revistinhas, mas agora seu programa preferido não é mais Jaspion e sim Cine Privê. Coisas da idade. Enquanto isso seu grande amor, acaba de completar 08 anos, adora bonecas, como a maior parte das meninas, e jura de pé junto que nunca irá namorar. Acha o beijo uma coisa muito nojenta.

O tempo, como dizia o Cazuza, não pára.

Assim nosso homem, já tem 25 anos. É ótimo com as mulheres, mas procura algo mais sério, na realidade, sem saber procura seu grande amor. Seu hobby mantém, adora ler revistinhas em quadrinhos. Hoje em dia seu futuro grande amor também mudou, já é uma mulher. 19 anos, linda, já não tem aquela opinião antiga sobre o beijo, muito pelo contrário. Com relação à pessoa da sua vida, não pensa muito nisso, se preocupa mais com os estudos.

É nesse momento que o lado mais cómico e trágico da vida acontece, eles só têm uma chance de se conhecerem. Seria assim: ela tropeçaria e cairia bem na frente do seu grande amor. Ele a ajudaria e aquilo porque todas as pessoas mais anseiam aconteceria. Um amor sem igual. Um amor de filme.

Eles andam, em uma pequena rua muito movimentada do centro de São Paulo. O destino de mãos dadas com o amor, esperam ansiosos pelo encontro enquanto tomam uma cerveja. Os dois sabem que eles foram feitos um para o outro, mas não podem interferir, tudo deve acontecer naturalmente. São as ordens do engenheiro maior que manda em toda essa bagunça que é a Terra.

Ele vem a passos largos, ela toda elegante mal sabe que há poucos metros irá tomar um belo tombo. Um tombo que poderá mudar a sua vida. Tudo está nos conformes, o destino e o amor apertam fortemente suas mãos, eles vãos se conhecer. É só isso que tem que acontecer. Estão há poucos metros.

Mas…

Ele pára. Viu algo que chamou atenção em uma loja. Ele entra na loja. Ela cai. Machuca o joelho. Ele não está lá. Uma mulher a ajuda levantar, ela agradece e sai muito constrangida. Ele aparece na porta da loja, tem em sua mão uma revistinha em quadrinhos e um cartão escrito Loja dos Quadrinhos. Ela já está longe, joelho ralado. Ele feliz com sua nova revista. O amor e o destino desiludidos. Agora resta a eles viverem sempre a procurar. Sem nunca mais encontrar.

Fim.

Você pode dizer: nossa que história sem graça. Se eles não se encontraram quer dizer que não era para ficarem juntos. Pode ser, mas sinceramente não sei. Como disse no início, não escrevo verdades, apenas tento escrever a vida.





O Viciado em Filas

8 08 2008

Eduardo era um rapaz normal. Brincou quando era criança, estudou a vida toda, ajudou o pai na serraria da família. Mas foi exatamente nesta época que Eduardo deixou de ser normal. Como ia muito ao banco para o pai, Eduardo ficou viciado em filas. Isso mesmo, viciado em filas! Vê se pode! O rapaz não podia ver uma fila que, ‘zupt’, corria para o último lugar. E não pense que ele gostava de filas por que ele conhecia um monte de gente, não não, nada disso. Ele até preferia não conversar com ninguém. Gostava mesmo de ficar em filas. Teve uma vez que ficou 4 dias em uma fila, quanto mais o tempo passava mais feliz ficava Eduardo, “isso sim é uma fila” pensava ele. Isso atrapalhava um pouco a vida de Eduardo. Sempre se atrasava para algum compromisso, ele sempre passava por alguma fila. Não agüentava, nem se fosse uma fila formada por 3 pessoas. Passar em frente banco então. Putz! Eduardo fazia o seu caminho pensando nos bancos. Abundância em fila! Uma vez viajou para o exterior. Não gostou. Lá eles não faziam filas como aqui. Aqui sim, temos Filas com ‘f’ maiúsculo. Jogo da seleção. Eduardo amava, não o futebol é claro, que isso ele detestava. Mas as filas, homéricas. Quando alguma grande empresa anunciava vagas de emprego, ele quase que dava pulos de alegria.

Mas como eu disse, isso começou a atrapalhar a vida dele. A família achava muito estranho os sumiços. O pai disse, ‘esse menino tá metido com droga’. A mãe era só pranto. Gritava ‘aonde foi que erramos?’. O pai chamou o filho para uma conversa.

- Nós sabemos – disse o pai.

- Sabem do quê? – retrucou Eduardo.

- Do seu vício.

Eduardo ficou surpreso, esperava tudo menos isso. Ninguém poderia descobrir. Viciado em filas! Isso iria acabar com a reputação da família.

- Como ficaram sabendo?

- Então é verdade? – perguntou o pai em total desespero – Meu Deus muleque! Mecher com droga, o que sua avó vai pensar? Seu tio Márcio então, aquele falastrão! Eu devia bater em você!

Uma saída! Então eles pensavam que eram drogas. Menos mal. Ele tinha que confirmar, melhor drogado que maluco. Maluco não. A família podia suportar um drogado, um maluco, jamais! Tinha até um primo de terceiro gral que fora internado uma vez. Ele ainda ia aos encontros da família. Era isso! Não podia deixar que soubessem…

- Desculpa pai! Não sei onde estava com a cabeça…

O pai ficou feliz. “Pelo menos o pivete confessou”.
Eduardo foi internado, disseram para a família que ele estava sob forte stresse por causa do Vestibular. Mandaram ele de férias para uma fazenda.

(Des) Pedro Américo