Sábado, 22:15.
Era possível ouvir o batido da música há um quarteirão de distância. O movimento era intenso na porta de uma das mais badaladas boates da região. Lindas mulheres, homens musculosos. A sensação e o cheiro da sensualidade eram quase palpáveis. Todos os olhares e toques eram extremamente carregados de um intenso erotismo. A poucos metros da entrada da boate Mateus e Carlos caminham em direção a esse ambiente recheado de desejo. Eles são dois amigos de infância completamente diferentes. Carlos poderia até ser escolhido como mascote da boate. Sua vida se resumia ao trabalho como gerente de uma grande multinacional e caçar mulheres. Nunca conseguiu, e nem queria, ficar com uma mulher mais do que algumas semanas. Era apaixonado por sexo. O que sempre encontrava nessa boate. Mateus, por sua vez, era bem mais tímido, na realidade muito mais tímido. Apesar de ser alegre, conversado, era como dizia Carlos, um sonhador abobalhado. Mateus gostava de conhecer as mulheres com quem se envolvia e dizia que adorava a alma das pessoas, das histórias, dos sonhos. Não é que ele não gostasse de sexo, pelo contrário, mas Mateus sempre queria algo mais. Apesar de estilos de vidas bem diferentes, os dois eram amigos. Estavam sempre juntos.
Naquela noite, Carlos estava mais louco por sexo do que o normal. Disse que não queria ficar muito na boate, seu único objetivo era conseguir uma linda mulher e ir para algum motel. Mateus, por algum motivo, que não sabia ao certo, estava triste, queria apenas escutar uma boa música e beber um pouco.
Porém, muitas coisas na vida não acontecem da maneira que pensamos.
Os dois entraram na boate e Carlos mais que depressa investiu com seu charme e papo sedutor em uma linda loira, que, segundos depois, demonstrava que queria a mesma coisa que ele. Mateus, de longe, tomando um whisky, admirava a desenvoltura de seu amigo com a Loira. Eles já dançavam sensualmente. Ela, com uma cintura escultural, apoiava seu corpo no corpo de Carlos, e deixava, propositadamente, seus seios firmes tocando o corpo daquele homem. Ele, louco de desejo, a abraçava e passava suas mãos nas costas daquela linda mulher. Tudo era feito sem afobação, devagar, descia até próximo as suas coxas, mas não ultrapassava o limite. Era esperto.
Estava apenas querendo deixá-la excitada. Conseguiu.
Depois de três músicas ela disse, deixando bem claro o que queria: “vamos sair daqui”. Carlos apenas acenou para o amigo e saiu. Nessa noite ele caçou e foi caçado.
Mateus ficou sozinho, pediu outra bebida e pensou em ir embora, não queria conversar com ninguém, veio mais pelo amigo que há essa hora já deveria estar dentro do carro com a Loira. O garçom o serviu e ele saiu andando sem prestar atenção em nada. Foi quando avistou uma mulher que dançava sozinha no meio da pista. Era uma mulher bonita, mas mais que isso, o que chamou sua atenção era a alegria e a vontade de viver que brotava daqueles olhos, que, sem saber por que, também pareciam tristes.
Ele parou. Ficou admirando-a.
No meio de toda aquela algazarra, casais se beijando, conversas, risos, Mateus lembrou de quando era criança e sua mãe colocava pequenas flores artificiais para atrair beija-flores, ele ficava horas parado apenas admirando o bailar daqueles belos pássaros. Aquela mulher era um beija-flor, ela dançava com uma alegria impressionante, mas por algum motivo Mateus sabia que, como o beija flor, ela não era um pássaro que poderia ser preso, sua grande força e beleza estava na liberdade da sua vida, em como se expressava sem constrangimento, sem malícia, apenas sincera. Natural. Por um instante, desejou intensamente ser uma daquelas flores que sua mãe utilizava, e atrair aquela Linda Beija-flor, para seus braços. Sem saber explicar muito bem o que aconteceu, logo após pensar isso, ela o olhou. Apenas um olhar, simples, direto, e começou a andar em sua direção.
Era uma beija-flor sendo atraída.
Mateus não sabia o que fazer, mas não precisava fazer nada. Ela chegou e disse: me tira daqui. Ele respondeu: qual seu nome? Ela o beijou e pediu: não faça perguntas, apenas me tira. Mateus pegou em sua mão e saiu na frente sem saber o que significava tudo aquilo. Ela pediu para não conversar, apenas queria ficar deitada em seu ombro e que ele a levasse para algum lugar solitário que pudessem ouvir uma música romântica. Mateus agia da mesma forma que as flores artificiais de sua mãe, apenas dava tudo o que aquele pássaro pedia. Ele a levou para sua casa. Ela, antes de entrar deu outro beijo, um beijo que parecia sugar a essência da vida de Mateus. Um beijo inesquecível.
Eles entraram.
Dentro do apartamento ela falou: meu nome é Andréia. Logo depois foi andando em direção ao cômodo que parecia ser o quarto, enquanto tirava a roupa lentamente. Quando chegou à porta estava completamente nua. Virou-se. Um corpo perfeito. Mateus não conseguia dizer nada, ela o chamou: “vem”. Mateus, já nu deitou, ela com uma sutileza apaixonante, deitou por cima dele e disse bem baixinho: “fique quieto, não me toque, apenas sinta o meu corpo sobre o seu. Por favor, apenas sinta é o que te peço.” Deu-lhe outro beijo, e como uma criança que pede proteção, se encolheu sobre o corpo daquele homem que mal conhecia. Mateus a principio não sabia o que fazer, apesar de estar louco de desejo, nunca tinha vivido sensações tão intensas com uma pessoa, ainda mais com uma pessoa que sabia apenas uma coisa: chamava-se Andréia. Resolveu mais uma vez obedecer. Apenas sentia aquela mulher linda, misteriosa, que a partir daquele momento sempre seria sua beija-flor. Os dois ficaram quietos, apenas se sentindo. Era uma sensação tão intensa e relaxante que, por incrível que pareça, adormeceram. Pela manhã, Mateus acordou e seu beija-flor havia voado. Não estava mais com ele. Do lado apenas um bilhete com a seguinte frase: “obrigado pela melhor noite de amor da minha vida.” Mateus chorou e passou a acreditar mais ainda que sexo nada tem haver com amor.
Thiago Carmona.